A relação entre diabetes e saúde dos rins é um tema crucial para pacientes, familiares e cuidadores. O diabetes mellitus, especialmente o tipo 2, está entre as principais causas de doença renal crônica (DRC) no mundo.
Essa condição evolui de forma silenciosa, podendo comprometer a função renal progressivamente até estágios avançados. Por isso, compreender como o diabetes afeta o rim, como detectar precocemente alterações e quais estratégias ajudam a prevenir complicações é fundamental para preservar a qualidade de vida.

A Dra. Marina Melém é médica formada pela Universidade do Estado do Pará e com residência em Clínica Médica e Nefrologia no Hospital de Base de São José do Rio Preto – FAMERP.
Possui alta capacitação em tratamento de doenças renais e anos de experiência em transplante de rim, fazendo parte do corpo clínico de um dos maiores centros transplantadores de rim do Brasil e do mundo.
Priorizando a saúde global de adultos de forma integrada, o cuidado da Dra. Marina vai além de exames, priorizando uma escuta ativa, acolhimento e tempo dedicado.
Dessa forma, procurar uma especialista como a Dra. Marina fará toda a diferença no seu diagnóstico e no seu tratamento!

Como o diabetes causa danos aos rins
O diabetes mellitus é caracterizado pelo aumento persistente da glicose no sangue. Quando mal controlada, a hiperglicemia causa danos progressivos aos vasos sanguíneos e aos sistemas reguladores do organismo. Os rins, que dependem de uma rede vascular altamente especializada para filtrar o sangue, estão entre os primeiros órgãos a sofrer esses efeitos.
Dentro dos rins, estruturas microscópicas chamadas glomérulos funcionam como filtros. A glicose elevada danifica esses filtros ao longo dos anos e o dano renal ocorre através dos seguintes mecanismos:
Hiperglicemia crônica
A glicose elevada aumenta a formação de produtos finais de glicação avançada (AGEs), que danificam a parede dos vasos renais.
Hiperfiltração glomerular
O rim trabalha mais para compensar a glicose alta, levando ao aumento da pressão intraglomerular e desgaste precoce.
Inflamação e estresse oxidativo
A glicose altera as células renais e favorece uma inflamação silenciosa, que causa cicatrização dos glomérulos.
Alterações hemodinâmicas
Vasos renais sofrem remodelação, estreitamento e rigidez, comprometendo a circulação.
Esse processo leva ao desenvolvimento da nefropatia diabética, também conhecida como doença renal diabética.
O que é a doença renal do diabetes?
A nefropatia diabética é uma complicação comum do diabetes, resultando do dano progressivo aos glomérulos. Ela é a principal causa de diálise no mundo e representa até 40% dos casos de doença renal crônica em países desenvolvidos.
A evolução ocorre em fases:
- Hiperfiltração glomerular: o rim trabalha em excesso devido à glicose alta.
- Microalbuminúria: pequenas quantidades de albumina passam para a urina, indicando dano inicial.
- Albuminúria franca (proteinúria): maior perda de proteínas na urina, sinal de lesão mais significativa.
- Redução da taxa de filtração glomerular (TFG): diminuição progressiva da função renal.
- Doença renal crônica avançada ou falência renal: necessidade de diálise ou transplante.
A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) utiliza o estadiamento proposto pela KDIGO, que combina estágios baseados na TFGe e na RAC, utilizando os dois parâmetros de forma complementar.

Estágios da Doença Renal do Diabetes, em relação ao risco de progressão para doença renal terminal. Fonte: adaptada do KDIGO.
É uma doença silenciosa, que normalmente não gera sintomas até estágios avançados. Geralmente, apenas exames laboratoriais conseguem identificar alterações. Quando os sintomas aparecem, a perda funcional já é relevante. Detectar a nefropatia nessa fase inicial é essencial para evitar progressão.
Os sinais mais comuns incluem:
- Inchaço em pernas, tornozelos ou rosto
- Aumento da pressão arterial
- Urina espumosa
- Fadiga
- Perda de apetite
- Náuseas
- Cãibras musculares
- Dificuldade de concentração
- Aumento ou diminuição do volume urinário
Principais fatores de risco para doença renal em pessoas portadoras de diabetes
Alguns fatores aumentam a probabilidade de desenvolvimento ou progressão da nefropatia diabética. Controlar esses fatores é uma das estratégias mais valiosas na prevenção. Entre os principais, estão:
- Hiperglicemia crônica (controle inadequado da glicose)
- Hipertensão arterial
- Tempo de diabetes superior a 10 anos
- Colesterol e triglicerídeos elevados
- Excesso de peso e obesidade
- Histórico familiar de doença renal
- Tabagismo
- Doenças cardiovasculares pré-existentes
- Consumo elevado de proteínas ou sódio
- Uso frequente de anti-inflamatórios
Como diagnosticar as alterações renais
O diagnóstico precoce melhora o prognóstico. As diretrizes recomendam que todos os pacientes com diabetes realizem avaliação renal anual. Monitorar rigorosamente os parâmetros abaixo auxilia no controle da doença e na prevenção de progressão. Essa avaliação inclui:
Exame de urina para relação albumina/creatinina (RAC)
É o teste mais sensível para identificar microalbuminúria. Valores aumentados indicam dano inicial. No DM2, o rastreamento da DRD deve ser realizado no momento do diagnóstico do DM, pois 7% dos pacientes já têm aumento da albuminúria nesse momento.
Todo teste anormal de albuminúria deve ser confirmado em 2 de 3 amostras, coletadas dentro de 6 meses, em razão da grande variabilidade diária.
Creatinina sérica
Medida no sangue, permite calcular a taxa de filtração glomerular (TFG), que informa o grau de função renal. TFG e a RAC são preditores independentes do curso evolutivo da doença renal e do risco de mortalidade. Portanto, ambas devem ser utilizadas simultaneamente no rastreamento.
Ultrassonografia dos rins
Ajuda a avaliar tamanho, forma e possíveis alterações estruturais.
Quando considerar outras nefropatias
Algumas condições sugerem a necessidade de investigar a presença de outras nefropatias além da doença renal do diabetes. Em alguns casos, faz-se necessário complementar investigação com biópsia renal e outros exames laboratoriais específicos. Os sinais de alerta são:

Fonte: Adaptado de Gross et al.22 IECA: Inibidores da enzima conversora da angiotensina, BRA: Bloqueadores do receptor da angiotensina; ISGLT2 (Inibidores do SGLT2).
Prevenção: como proteger os rins se você tem diabetes
A prevenção é a melhor estratégia para evitar complicações renais. As principais recomendações incluem:
Controle rigoroso da glicemia
Manter a glicose dentro das metas orientadas pelo endocrinologista diminui drasticamente o risco de lesão renal. Deve-se considerar que valores muito baixos ou muito elevados de HbA1c podem estar associados a desfechos negativos em pacientes com doença renal do diabetes.
De acordo com a Diretriz Brasileira de Diabetes orienta que:
- Em indivíduos com DM1 ou DM2, é recomendado buscar a meta de HbA1c 6,5-7%, quando a TFG for maior que 60 ml/min e a RAC maior que 30mg/g, para reduzir a progressão da albuminúria e a progressão da doença longo prazo.
- É recomendado atingir e manter a meta de HbA1c entre 7-7,9% em indivíduos com DM1 ou DM2, quando a TFG for menor que 60 ml/min ou o paciente estiver em diálise, para evitar aumento de mortalidade.
Controle da pressão arterial
A hipertensão é um fator de progressão da doença renal. Em pacientes com diabetes, é recomendado tratamento intensivo da hipertensão arterial sistêmica, em razão dos benefícios cardiovasculares e da evolução da doença renal (redução do risco de AVC, IAM e redução da albuminúria).
Deve-se manter a pressão preferencialmente abaixo de 130/80 mmHg e a medida deve ser acompanhada em todas as consultas e através da monitorização domiciliar.
O uso de inibidores da enzima conversora da angiotensina (IECA) ou de bloqueadores do receptor da angiotensina II (BRA) é recomendado para pacientes que apresentem RAC>30mg/g, com o objetivo de reduzir a progressão da doença renal, independentemente dos níveis da pressão arterial.
O uso de antagonistas não-esteroidais do receptor mineralocorticoide (finerenona) deve ser considerado para proteção renal, independentemente da pressão arterial, e em associação a doses máximas toleradas de IECA ou BRA, nos pacientes com doença renal do diabetes, com TFG entre 25 e 60 mL/min e RAC maior que 30 mg/g.
Dieta adequada para saúde renal
A orientação nutricional inclui:
- Redução de sódio: o limite de ingestão de sódio em até 1,5 g/dia, ou de sal, em até 3,75 g/dia, quando houver hipertensão arterial.
- Evitar alimentos ultraprocessados
- Controle da ingestão de proteínas conforme orientação médica.
- Preferência por legumes, verduras, cereais integrais e fontes magras de proteína
Atividade física regular
Exercícios auxiliam no controle da glicose, da pressão arterial e do peso.
Evitar anti-inflamatórios
Esses medicamentos podem piorar a função renal, especialmente em quem já tem diabetes.
Controle de perfil lipídico
Colesterol e triglicerídeos elevados aumentam o risco cardiovascular e renal.
O uso de estatinas de alta potência é recomendado em pacientes com TFG menor que 60 mL/min (não dialítica) e em pacientes pós-transplante renal, com o objetivo de reduzir eventos cardiovasculares.
O uso de fibratos pode estar associado à discreta queda da TFG e este efeito é revertido com a suspensão do fármaco. Esta classe medicamentosa oferece benefício pequeno em pacientes com doença renal do diabetes. Assim, os fibratos somente devem ser usados no caso de triglicérides muito elevados (>880 mg/dL), para reduzir o risco de pancreatite aguda. Ressalta-se a necessidade de ajuste das doses de acordo com a função renal.
Não fumar
O tabagismo acelera a progressão da doença renal e aumenta o risco de eventos cardiovasculares.
Uso de medicamentos específicos para proteção renal
Classe de medicamentos como os iSGLT2 e BRA/IECA têm benefício adicional na proteção dos rins.
Tratamento da doença renal diabética
O tratamento inclui medidas para:
- Reduzir proteinúria: o uso de BRA (bloqueadores dos receptores de angiotensina) e IECA (inibidores da enzima conversora de angiotensina) é amplamente recomendado.
- Controlar glicemia: medicamentos como iSGLT2 têm comprovado benefício renal além do controle da glicose.
- Reduzir inflamação e estresse oxidativo: a adoção de hábitos de vida saudáveis tem papel fundamental.
- Manejar complicações: inclui controle da anemia, acúmulo de toxinas, retenção de líquidos e distúrbios eletrolíticos.
- Planejar terapia renal substitutiva: em casos avançados, pode ser necessário iniciar hemodiálise, diálise peritoneal ou considerar transplante de rim.

Fonte: Diretriz SBD 2025. Avaliação e tratamento da doença renal do diabetes.
O uso da metformina é recomendado, em associação ao ISGLT2, para melhora adicional do controle glicêmico, visando atingir a meta de HbA1c. A dose de metformina deve ser reduzida para até 1g ao dia, se a TFG estiver entre 30-45ml/min, e suspensa se menor que 30ml/min, pelo maior risco de acidose lática.
O uso de insulina deve ser considerado como opção para melhora do controle glicêmico em indivíduos com DM2 e doença renal do diabetes, com TFG maior que 30 mL/min, quando a HbA1c estiver acima da meta.
Importância do acompanhamento com outras especialidades
Pacientes com nefropatia diabética exigem acompanhamento multidisciplinar e com outras especialidades médicas, como cardiologia, endocrinologia, cirurgia vascular, oftalmologia, nutrição e/ou nutrologia, educador físico e fisioterapeuta.
A albuminúria é um fator de risco importante para eventos cardiovasculares e para insuficiência cardíaca no indivíduo com DM e DRC. Estudos mostram que no DM1 e no DM2 a albuminúria muito elevada (macroalbuminúria) foi a principal preditora de mortalidade, independente da TFG e de outros fatores de risco cardiovasculares.
Diabetes e doença renal aumentam o risco de:
- Infarto agudo do miocárdio
- Acidente vascular cerebral
- Insuficiência cardíaca
- Doença vascular periférica
O acompanhamento regular com especialistas permite:
- Ajuste de medicamentos
- Detecção precoce de alterações
- Intervenção adequada para retardar progressão
- Orientações personalizadas de nutrição e estilo de vida

Cuidar dos rins é parte essencial do manejo do diabetes
O diabetes pode afetar os rins de forma silenciosa e progressiva, mas a boa notícia é que a maior parte desses danos podem ser prevenidos com diagnóstico precoce e controle adequado da doença. Monitorar exames, cuidar da alimentação, manter a glicemia controlada e seguir as orientações médicas são medidas essenciais para preservar a saúde renal.
A conscientização é o primeiro passo. Se você tem diabetes, converse com seu médico sobre sua função renal e faça acompanhamento regular. A prevenção começa com informação e ações consistentes ao longo do tempo.
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