Dra. Marina Melém – Nefrologia e Clínica Médica em São Paulo – SP

A infecção urinária (ITU) é uma das condições mais comuns na prática médica e está entre as principais causas de atendimento em clínicas e pronto-socorros. Do ponto de vista da Nefrologia, as infecções do trato urinário exigem atenção especial, pois, quando não tratadas adequadamente, podem causar danos renais permanentes, especialmente em pacientes com fatores de risco ou doenças renais pré-existentes.

infecção urinária

A infecção urinária ocorre quando microrganismos, em sua maioria bactérias, invadem, superam os mecanismos de defesa locais e se multiplicam em alguma parte do trato urinário, que inclui os rins, ureteres, bexiga e uretra. Em condições normais, a urina é estéril. A entrada e multiplicação de bactérias nesse sistema causam inflamação e sintomas característicos.

A infecção urinária é um problema de saúde pública global. No Brasil, estima-se que mais da metade das mulheres apresentará pelo menos um episódio de ITU ao longo da vida. Em contraste, os homens têm menor incidência até a sexta década, quando o aumento da próstata e outros fatores elevam o risco.

Também é muito prevalente em pacientes hospitalizados (principalmente com dispositivos invasivos como sonda urinária), em indivíduos com alterações estruturais ou funcionais do trato urinário e em indivíduos imunossuprimidos.

Em ambiente hospitalar, as infecções urinárias representam entre 30% e 40% de todas as infecções.

A Dra. Marina Melém é médica formada pela Universidade do Estado do Pará e com residência em Clínica Médica e Nefrologia no Hospital de Base de São José do Rio Preto – FAMERP.

Possui alta capacitação em tratamento de infecções urinárias e anos de experiência com pacientes transplantados e imunossuprimidos, fazendo parte do corpo clínico de um dos maiores centros transplantadores de rim do Brasil e do mundo.

Priorizando a saúde global de adultos de forma integrada, o cuidado da Dra. Marina vai além de exames, priorizando uma escuta ativa, acolhimento e tempo dedicado.

Dessa forma, procurar uma especialista como a Dra. Marina fará toda a diferença no seu diagnóstico e no seu tratamento!

Veja o que pacientes comentam sobre a Dra Marina:

Causas relacionadas à infecção urinária

A bactéria Escherichia coli é responsável por cerca de 80 a 90% das infecções urinárias comunitárias. Outras bactérias envolvidas incluem Klebsiella, Proteus mirabilis, Enterococcus e Pseudomonas aeruginosa (principalmente em infecções hospitalares).

Fatores de risco envolvidos:

  • Sexo feminino: a uretra curta e a proximidade com o ânus facilitam a contaminação.

  • Atividade sexual: o atrito durante a relação pode favorecer a entrada de bactérias.

  • Uso de espermicidas ou diafragma: altera o equilíbrio da flora vaginal.

  • Gestação: o aumento do útero comprime os ureteres, favorecendo a estase urinária.

  • Menopausa: a queda dos níveis de estrogênio reduz a defesa natural do trato urinário.

  • Cateter vesical: importante causa de infecção hospitalar e infecção urinária de repetição.

  • Obstrução urinária: por cálculos renais, estenose (estreitamento) uretral ou hiperplasia prostática.

  • Diabetes mellitus: o “açúcar” na urina serve como meio de crescimento bacteriano.

  • Imunossupressão: comum em pacientes transplantados de rim ou uso prolongado de corticoides.

E como a infecção se instala?

A maioria — cerca de 95% — das ITUs ocorre por via ascendente. Ou seja, bactérias presentes na região perineal, no canal gastrointestinal ou na área vaginal aderem à uretra, sobem até a bexiga e, em casos mais graves, alcançam os rins através dos ureteres.

Uma pequena parcela de infecções de trato urinário superior (rins) pode ocorrer por via hematogênica (via sangue), mas isso é menos comum.

Para que a colonização vire infecção, normalmente há um desbalanceamento entre os mecanismos de defesa local (fluxo urinário, pH da urina, imunidade local, microrganismos protetores) e a carga invasora de bactérias.

Como se divide a infecção urinária

É classificada de acordo com sua localização anatômica:

  • Uretrite: infecção na uretra.

  • Cistite: infecção na bexiga, forma mais comum e geralmente benigna.

  • Pielonefrite: infecção urinária complicada, quando a bactéria atinge o trato urinário superior e chega aos rins. Representa cerca de 20% dos casos em adultos.  É considerada mais grave, pode evoluir com sepse urinária ou insuficiência renal aguda, exigindo acompanhamento nefrológico rigoroso.

É classificada de acordo com número de episódios:

Define-se ITU recorrente (ou de repetição)

  • pelo menos 2 episódios de ITU no prazo de 6 meses

OU

  • 3 ou mais episódios em 12 meses consecutivos

É mais comum em mulheres, mas também afeta pacientes com doenças renais crônicas, diabéticos, usuários de cateteres ou pessoas com alterações anatômicas urinárias.

Dentro desse conceito, distinguem-se:

  • Reinfecção: nova infecção causada por agente diferente ou igual, após tratamento completo, com intervalo livre (mais comum).

  • Recaída: persistência da mesma bactéria (ou cepa muito semelhante) após tratamento inadequado ou incompleto, geralmente em curto tempo (por exemplo, dentro de 2 semanas).

A distinção entre reinfecção e recaída tem implicações na investigação e no tratamento.

O que o paciente vai sentir?

Os sintomas variam conforme o local da infecção e a gravidade do quadro.

Cistite e uretrite (infecção da bexiga e uretra):

  • Dor ou ardência ao urinar (disúria).

  • Necessidade frequente de urinar, mesmo com pequeno volume (polaquiúria).

  • Urgência miccional.

  • Dor suprapúbica ou sensação de peso na bexiga.

  • Urina turva, escura ou com odor forte.

  • Presença de sangue na urina (hematúria).

Pielonefrite (infecção dos rins):

  • Febre alta e calafrios.

  • Dor lombar ou nos flancos.

  • Náuseas e vômitos.

  • Mal-estar geral.

  • Dor lombar ou em flanco (na região dos rins).

  • Possível disfunção renal se o quadro for grave.

Em idosos, os sintomas podem ser inespecíficos: confusão mental, fraqueza, queda do estado geral, perda de apetite e hipotensão, mesmo sem febre. Em pacientes imunossuprimidos, o quadro pode ser silencioso e evoluir rapidamente.

É importante que, diante de sintomas sugestivos, o paciente procure avaliação médica para confirmação e tratamento adequado.

Em casos avançados, pode haver sinais de sepse (pressão baixa, taquicardia, mal estado geral).

Diagnóstico: como é feito

O diagnóstico da ITU envolve combinação de avaliação clínica e exames laboratoriais. Nem toda dor ao urinar significa infecção, por isso o médico avaliará história, exame físico e resultado de exames.

Avaliação clínica e história

  • Levantamento dos sintomas clássicos: disúria, frequência, urgência, dor lombar, febre).

  • Indicação de fatores de risco: uso de sondas, antecedentes de ITU, doenças urológicas, gravidez, obstruções.

  • Uso recente de antibióticos.

Exame de urina I (EAS)

O exame de urina (também chamado de análise de urina, sumário de urina, EAS ou urina I) pode mostrar:

  • Piúria: presença e/ou aumento no número de leucócitos na urina.

  • Nitrito positivo: algumas bactérias transformam nitrato em nitrito e sua presença é indicador bastante sugestivo de infecção urinária.

  • Esterilidade da microbiota normal.

  • Hematúria (presença de hemácias).

  • Presença de bactérias visíveis (bacteriúria)

No entanto, o exame de urina sozinho não identifica o agente nem sua sensibilidade a antibióticos.

Cultura de urina (urocultura) e antibiograma

A urocultura (cultura quantitativa da urina) é o exame de referência para confirmar infecção (considerado padrão-ouro) e identificar o agente causador, além de determinar os antibióticos aos quais ele é sensível (antibiograma).

Deve ser coletado antes do início do tratamento, sempre que possível. Na suspeita de infecções urinárias recorrentes ou complicadas, recomenda-se sempre realizar a cultura antes de iniciar ou modificar o tratamento.

Outros exames complementares

Em casos complicados ou recorrentes (isto é, não respondem ao tratamento padrão ou há sinais de quadro mais agressivo), podem ser indicados:

  • Avaliação de função renal e eletrólitos, hemograma pode demonstrar leucocitose (aumento de leucócitos no sangue).

  • Ultrassonografia das vias urinárias: útil para descartar obstrução, cálculos ou alterações estruturais.

  • Tomografia computadorizada: indicada em casos complicados ou sem resposta ao tratamento. Investigar complicações como abscessos peri-renais.

  • Cistoscopia: investigação complementar de cistite de repetição ou disúria crônica sem causa aparente.

  • Urografia excretora: avaliação de alterações anatômicas do trato urinário.

  • Estudo urodinâmico, se houver suspeita de disfunção miccional

Tratamento da infecção urinária

Cistite não complicada:

O tratamento ambulatorial é feito com antibióticos orais por 3 a 7 dias, geralmente suficientes para erradicar a infecção.

O uso de analgésicos urinários (como fenazopiridina – pyridium) pode aliviar os sintomas iniciais. É muitas vezes associado ao antibiótico para, mas seu uso deve ser temporário.

Pielonefrite:

Requer antibioticoterapia, mais prolongada, geralmente por 10 a 14 dias. Casos leves podem ser tratados por via oral, mas quadros moderados ou graves exigem hospitalização e antibióticos intravenosos. O tratamento deve ser ajustado conforme o resultado da cultura de urina e do antibiograma. 

A hidratação adequada é essencial para o manejo do quadro e evitar lesão renal aguda.

Infecções complicadas ou associadas a fatores estruturais:

O tratamento deve ser direcionado para o agente específico e associado à correção do fator predisponente. Nos casos hospitalares, podem ser necessários antibióticos de amplo espectro e acompanhamento conjunto entre nefrologista e infectologista.

  • Investigação urológica e nefrológica é essencial.

  • Pode ser necessário tratar litíase renal, refluxo vesicoureteral, obstruções ou cateteres infectados.

  • Em pacientes com transplante de rim o manejo deve ser individualizado, com atenção ao risco para evoluções mais graves, além de possíveis eventos associados como rejeição ou outras infecções oportunistas.

Tratamento de ITU de repetição (recorrente):

Para casos de ITU recorrente, o manejo terapêutico costuma combinar terapias preventivas com tratamento adequado dos episódios agudos:

  • Antibióticos profiláticos em baixas doses: uso por alguns meses ou até mesmo continuamente, em casos selecionados e monitorados.

  • Antibiótico pós-coito: administrar dose única logo após relação sexual, se os episódios estiverem associados à relação).

  • Uso de metenamina (metenamina hipúrico) para prevenção em pacientes com bexiga estruturalmente normal. Essa substância libera formaldeíno no meio da urina ácida, gerando um efeito bacteriostático. Estudos recentes mostram que é alternativa às profilaxias antibióticas.

  • Terapia estrogênica vaginal em mulheres pós-menopausa (isoladas ou combinadas com outras medidas) para restaurar flora vaginal protetora e reduzir recidivas.

  • Hidratação adequada, melhorar hábitos miccionais e medidas de higiene íntima. 

  • Em casos de recidiva persistente, investigação urológica mais detalhada, com exames de imagem e estudos funcionais, é indicada.

  • Controle e vigilância de condições predisponentes como diabetes e suspender uso de medicação que cause glicosúria.  

  • Em casos selecionados, uso de suplementos com substâncias como cranberry ou probióticos: algumas diretrizes consideram o uso, mas os resultados são controversos e com evidência moderada.

  • Uso racional de antibióticos, evitando uso desnecessário ou prolongado que favoreça resistência. 

Infecção urinária e função renal

A relação entre infecção urinária e rim é direta. Quando a infecção atinge o parênquima renal, como na pielonefrite, há risco de formação de cicatrizes renais permanentes. 

A repetição de episódios infecciosos pode levar a lesão renal progressiva, culminando em doença renal crônica (DRC). Por isso, o acompanhamento com o nefrologista é indispensável em casos de infecção urinária de repetição, pielonefrite ou alterações nos exames de função renal (ureia e creatinina).

Em transplantados renais, a infecção urinária é uma das causas mais frequentes de internação e pode comprometer o enxerto. O diagnóstico precoce e o uso criterioso de antibióticos são essenciais nessa população.

Quando procurar um nefrologista?

A avaliação nefrológica é indicada quando:

  • infecções urinárias recorrentes.

  • O paciente apresenta pielonefrite de repetição ou complicada.

  • Existem alterações em exames de função renal.

  • cálculos renais ou anomalias estruturais.

  • O paciente é imunossuprimido ou transplantado renal.

O nefrologista atua não apenas no tratamento das infecções urinárias simples, mas também nas complicações renais, na avaliação do impacto da infecção sobre o rim, investiga causas estruturais e orienta medidas preventivas individualizadas.

⚠️ Atenção! Você deve procurar atendimento de urgência, se houver:

  • Febre alta persistente.

  • Dor lombar intensa, calafrios, mal estar geral.

  • Sangramento na urina (hematúria) persistente.

  • Sintomas de infecção que não melhoram com 48 a 72 horas de tratamento.

  • Náuseas, vômitos intensos, incapacidade de manter hidratação.

  • Sinais de infecção sistêmica (taquicardia, queda de pressão, confusão mental).

  • Pacientes com imunossupressão, gestantes ou com doença renal crônica que apresentem sintomas de ITU. 

Em resumo…

A infecção urinária é uma condição comum e pode causar desconforto significativo e risco de complicações caso não seja diagnosticada e tratada adequadamente. Compreender suas causas, fatores de risco, manifestações e formas de diagnóstico e tratamento ajuda a oferecer uma abordagem segura e eficaz.

É essencial não apenas tratar o episódio agudo, mas também buscar prevenir recidivas, a fim de preservar sua saúde renal.

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