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Diabetes e o Rim: entenda a relação e como proteger sua saúde renal

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Glicosímetro medindo a glicemia a partir de uma gota de sangue do dedo
Nesta página 9 tópicos
  1. Como o diabetes causa danos aos rins
  2. O que é a doença renal do diabetes?
  3. Principais fatores de risco para doença renal em pessoas portadoras de diabetes
  4. Como diagnosticar as alterações renais
  5. Quando considerar outras nefropatias
  6. Prevenção: como proteger os rins se você tem diabetes
  7. Tratamento da doença renal diabética
  8. Importância do acompanhamento com outras especialidades
  9. Cuidar dos rins é parte essencial do manejo do diabetes

A relação entre diabetes e saúde dos rins é um tema crucial para pacientes, familiares e cuidadores. O diabetes mellitus, especialmente o tipo 2, está entre as principais causas de doença renal crônica (DRC) no mundo.

Essa condição evolui de forma silenciosa, podendo comprometer a função renal progressivamente até estágios avançados. Por isso, compreender como o diabetes afeta o rim, como detectar precocemente alterações e quais estratégias ajudam a prevenir complicações é fundamental para preservar a qualidade de vida.

Como o diabetes causa danos aos rins

O diabetes mellitus é caracterizado pelo aumento persistente da glicose no sangue. Quando mal controlada, a hiperglicemia causa danos progressivos aos vasos sanguíneos e aos sistemas reguladores do organismo. Os rins, que dependem de uma rede vascular altamente especializada para filtrar o sangue, estão entre os primeiros órgãos a sofrer esses efeitos.

Dentro dos rins, estruturas microscópicas chamadas glomérulos funcionam como filtros. A glicose elevada danifica esses filtros ao longo dos anos e o dano renal ocorre através dos seguintes mecanismos:

Hiperglicemia crônica

A glicose elevada aumenta a formação de produtos finais de glicação avançada (AGEs), que danificam a parede dos vasos renais.

Hiperfiltração glomerular

O rim trabalha mais para compensar a glicose alta, levando ao aumento da pressão intraglomerular e desgaste precoce.

Inflamação e estresse oxidativo

A glicose altera as células renais e favorece uma inflamação silenciosa, que causa cicatrização dos glomérulos.

Alterações hemodinâmicas

Vasos renais sofrem remodelação, estreitamento e rigidez, comprometendo a circulação.

Esse processo leva ao desenvolvimento da nefropatia diabética, também conhecida como doença renal diabética.

O que é a doença renal do diabetes?

A nefropatia diabética é uma complicação comum do diabetes, resultando do dano progressivo aos glomérulos. Ela é a principal causa de diálise no mundo e representa até 40% dos casos de doença renal crônica em países desenvolvidos.

A evolução ocorre em fases:

  • Hiperfiltração glomerular: o rim trabalha em excesso devido à glicose alta.
  • Microalbuminúria: pequenas quantidades de albumina passam para a urina, indicando dano inicial.
  • Albuminúria franca (proteinúria): maior perda de proteínas na urina, sinal de lesão mais significativa.
  • Redução da taxa de filtração glomerular (TFG): diminuição progressiva da função renal.
  • Doença renal crônica avançada ou falência renal: necessidade de diálise ou transplante.

A Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) utiliza o estadiamento proposto pela KDIGO, que combina estágios baseados na TFGe e na RAC, utilizando os dois parâmetros de forma complementar.

Tabela KDIGO que cruza as categorias de TFG (G1 a G5) com as de albuminúria (A1 a A3), colorida por risco de progressão: baixo, intermediário, alto e muito alto
Estágios da Doença Renal do Diabetes, em relação ao risco de progressão para doença renal terminal. Fonte: adaptada do KDIGO. Ver em tamanho real ↗

É uma doença silenciosa, que normalmente não gera sintomas até estágios avançados. Geralmente, apenas exames laboratoriais conseguem identificar alterações. Quando os sintomas aparecem, a perda funcional já é relevante. Detectar a nefropatia nessa fase inicial é essencial para evitar progressão.

Os sinais mais comuns incluem:

  • Inchaço em pernas, tornozelos ou rosto
  • Aumento da pressão arterial
  • Urina espumosa
  • Fadiga
  • Perda de apetite
  • Náuseas
  • Cãibras musculares
  • Dificuldade de concentração
  • Aumento ou diminuição do volume urinário

Principais fatores de risco para doença renal em pessoas portadoras de diabetes

Alguns fatores aumentam a probabilidade de desenvolvimento ou progressão da nefropatia diabética. Controlar esses fatores é uma das estratégias mais valiosas na prevenção. Entre os principais, estão:

  • Hiperglicemia crônica (controle inadequado da glicose)
  • Hipertensão arterial
  • Tempo de diabetes superior a 10 anos
  • Colesterol e triglicerídeos elevados
  • Excesso de peso e obesidade
  • Histórico familiar de doença renal
  • Tabagismo
  • Doenças cardiovasculares preexistentes
  • Consumo elevado de proteínas ou sódio
  • Uso frequente de anti-inflamatórios

Como diagnosticar as alterações renais

O diagnóstico precoce melhora o prognóstico. As diretrizes recomendam que todos os pacientes com diabetes realizem avaliação renal anual. Monitorar rigorosamente os parâmetros abaixo auxilia no controle da doença e na prevenção de progressão. Essa avaliação inclui:

Exame de urina para relação albumina/creatinina (RAC)

É o teste mais sensível para identificar microalbuminúria. Valores aumentados indicam dano inicial. No DM2, o rastreamento da DRD deve ser realizado no momento do diagnóstico do DM, pois 7% dos pacientes já têm aumento da albuminúria nesse momento.

Todo teste anormal de albuminúria deve ser confirmado em 2 de 3 amostras, coletadas dentro de 6 meses, em razão da grande variabilidade diária.

Creatinina sérica

Medida no sangue, permite calcular a taxa de filtração glomerular (TFG), que informa o grau de função renal. TFG e a RAC são preditores independentes do curso evolutivo da doença renal e do risco de mortalidade. Portanto, ambas devem ser utilizadas simultaneamente no rastreamento.

Ultrassonografia dos rins

Ajuda a avaliar tamanho, forma e possíveis alterações estruturais.

Quando considerar outras nefropatias

Algumas condições sugerem a necessidade de investigar a presença de outras nefropatias além da doença renal do diabetes. Em alguns casos, faz-se necessário complementar investigação com biópsia renal e outros exames laboratoriais específicos. Os sinais de alerta são:

Sinais de alerta para outras nefropatias: albuminúria em pacientes com DM1 com menos de 5 anos de doença; início abrupto ou proteinúria rapidamente progressiva; proteinúria nefrótica; declínio rápido da TFG; queda rápida da TFG após início de IECA/BRA ou ISGLT2; sedimento urinário alterado; manifestações clínicas de outras doenças sistêmicas
Fonte: Adaptado de Gross et al. IECA: Inibidores da enzima conversora da angiotensina, BRA: Bloqueadores do receptor da angiotensina; ISGLT2 (Inibidores do SGLT2). Ver em tamanho real ↗

Prevenção: como proteger os rins se você tem diabetes

A prevenção é a melhor estratégia para evitar complicações renais. As principais recomendações incluem:

Controle rigoroso da glicemia

Manter a glicose dentro das metas orientadas pelo endocrinologista diminui drasticamente o risco de lesão renal. Deve-se considerar que valores muito baixos ou muito elevados de HbA1c podem estar associados a desfechos negativos em pacientes com doença renal do diabetes.

A Diretriz Brasileira de Diabetes orienta que:

  • Em indivíduos com DM1 ou DM2, é recomendado buscar a meta de HbA1c 6,5-7%, quando a TFG for maior que 60 ml/min e a RAC maior que 30mg/g, para reduzir a progressão da albuminúria e a progressão da doença a longo prazo.
  • É recomendado atingir e manter a meta de HbA1c entre 7-7,9% em indivíduos com DM1 ou DM2, quando a TFG for menor que 60 ml/min ou o paciente estiver em diálise, para evitar aumento de mortalidade.

Controle da pressão arterial

A hipertensão é um fator de progressão da doença renal. Em pacientes com diabetes, é recomendado tratamento intensivo da hipertensão arterial sistêmica, em razão dos benefícios cardiovasculares e da evolução da doença renal (redução do risco de AVC, IAM e redução da albuminúria).

Deve-se manter a pressão preferencialmente abaixo de 130/80 mmHg e a medida deve ser acompanhada em todas as consultas e através da monitorização domiciliar.

O uso de inibidores da enzima conversora da angiotensina (IECA) ou de bloqueadores do receptor da angiotensina II (BRA) é recomendado para pacientes que apresentem RAC>30mg/g, com o objetivo de reduzir a progressão da doença renal, independentemente dos níveis da pressão arterial.

O uso de antagonistas não esteroidais do receptor mineralocorticoide (finerenona) deve ser considerado para proteção renal, independentemente da pressão arterial, e em associação a doses máximas toleradas de IECA ou BRA, nos pacientes com doença renal do diabetes, com TFG entre 25 e 60 mL/min e RAC maior que 30 mg/g.

Dieta adequada para saúde renal

A orientação nutricional inclui:

  • Redução de sódio: o limite de ingestão de sódio em até 1,5 g/dia, ou de sal, em até 3,75 g/dia, quando houver hipertensão arterial.
  • Evitar alimentos ultraprocessados
  • Controle da ingestão de proteínas conforme orientação médica.
  • Preferência por legumes, verduras, cereais integrais e fontes magras de proteína

Atividade física regular

Exercícios auxiliam no controle da glicose, da pressão arterial e do peso.

Evitar anti-inflamatórios

Esses medicamentos podem piorar a função renal, especialmente em quem já tem diabetes.

Controle de perfil lipídico

Colesterol e triglicerídeos elevados aumentam o risco cardiovascular e renal.

O uso de estatinas de alta potência é recomendado em pacientes com TFG menor que 60 mL/min (não dialítica) e em pacientes pós-transplante renal, com o objetivo de reduzir eventos cardiovasculares.

O uso de fibratos pode estar associado à discreta queda da TFG e este efeito é revertido com a suspensão do fármaco. Esta classe medicamentosa oferece benefício pequeno em pacientes com doença renal do diabetes. Assim, os fibratos somente devem ser usados no caso de triglicérides muito elevados (>880 mg/dL), para reduzir o risco de pancreatite aguda. Ressalta-se a necessidade de ajuste das doses de acordo com a função renal.

Não fumar

O tabagismo acelera a progressão da doença renal e aumenta o risco de eventos cardiovasculares.

Uso de medicamentos específicos para proteção renal

Classes de medicamentos como os iSGLT2 e os BRA/IECA têm benefício adicional na proteção dos rins.

Tratamento da doença renal diabética

O tratamento inclui medidas para:

  • Reduzir proteinúria: o uso de BRA (bloqueadores dos receptores de angiotensina) e IECA (inibidores da enzima conversora de angiotensina) é amplamente recomendado.
  • Controlar glicemia: medicamentos como iSGLT2 têm comprovado benefício renal além do controle da glicose.
  • Reduzir inflamação e estresse oxidativo: a adoção de hábitos de vida saudáveis tem papel fundamental.
  • Manejar complicações: inclui controle da anemia, acúmulo de toxinas, retenção de líquidos e distúrbios eletrolíticos.
  • Planejar terapia renal substitutiva: em casos avançados, pode ser necessário iniciar hemodiálise, diálise peritoneal ou considerar transplante de rim.
Tabela da Diretriz SBD com as recomendações de tratamento da doença renal do diabetes no DM2, por faixa de TFG
Fonte: Diretriz SBD 2025. Avaliação e tratamento da doença renal do diabetes. Ver em tamanho real ↗

O uso da metformina é recomendado, em associação ao ISGLT2, para melhora adicional do controle glicêmico, visando atingir a meta de HbA1c. A dose de metformina deve ser reduzida para até 1g ao dia, se a TFG estiver entre 30-45ml/min, e suspensa se menor que 30ml/min, pelo maior risco de acidose lática.

O uso de insulina deve ser considerado como opção para melhora do controle glicêmico em indivíduos com DM2 e doença renal do diabetes, com TFG maior que 30 mL/min, quando a HbA1c estiver acima da meta.

Importância do acompanhamento com outras especialidades

Pacientes com nefropatia diabética exigem acompanhamento multidisciplinar e com outras especialidades médicas, como cardiologia, endocrinologia, cirurgia vascular, oftalmologia, nutrição e/ou nutrologia, educador físico e fisioterapeuta.

A albuminúria é um fator de risco importante para eventos cardiovasculares e para insuficiência cardíaca no indivíduo com DM e DRC. Estudos mostram que no DM1 e no DM2 a albuminúria muito elevada (macroalbuminúria) foi a principal preditora de mortalidade, independente da TFG e de outros fatores de risco cardiovasculares.

Diabetes e doença renal aumentam o risco de:

  • Infarto agudo do miocárdio
  • Acidente vascular cerebral
  • Insuficiência cardíaca
  • Doença vascular periférica

O acompanhamento regular com especialistas permite:

  • Ajuste de medicamentos
  • Detecção precoce de alterações
  • Intervenção adequada para retardar progressão
  • Orientações personalizadas de nutrição e estilo de vida
Modelos de olho, rim e coração ao lado de glicosímetro, caneta de insulina e um pé, representando os órgãos afetados pelo diabetes

Cuidar dos rins é parte essencial do manejo do diabetes

O diabetes pode afetar os rins de forma silenciosa e progressiva, mas a boa notícia é que a maior parte desses danos podem ser prevenidos com diagnóstico precoce e controle adequado da doença. Monitorar exames, cuidar da alimentação, manter a glicemia controlada e seguir as orientações médicas são medidas essenciais para preservar a saúde renal.

A conscientização é o primeiro passo. Se você tem diabetes, converse com seu médico sobre sua função renal e faça acompanhamento regular. A prevenção começa com informação e ações consistentes ao longo do tempo.

Dra. Marina Melém trabalhando ao notebook no consultório
Quem escreve

A Dra. Marina Melém é médica formada pela Universidade do Estado do Pará e com residência em Clínica Médica e Nefrologia no Hospital de Base de São José do Rio Preto – FAMERP.

Possui alta capacitação em tratamento de doenças renais e anos de experiência em transplante de rim, fazendo parte do corpo clínico de um dos maiores centros transplantadores de rim do Brasil e do mundo.

Priorizando a saúde global de adultos de forma integrada, o cuidado da Dra. Marina vai além de exames, priorizando uma escuta ativa, acolhimento e tempo dedicado.

Dessa forma, procurar uma especialista como a Dra. Marina fará toda a diferença no seu diagnóstico e no seu tratamento!

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